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Pirambóia

junho 12, 2008

Violência.
Violência-te.
Pensarviolentar.
Navalha.
Tonto eu.
Pó você.
Vice-versa.
Pó-tonto.
Pé torto.
Torto eu.
Minto eu.
Manto você.
Reto você.
Vesgo eu.
Ponto você.
E vice-versa.
e vice-versa, verso, verto…
Eu voce sem Eu

Nem Eu nem você.

Racho eus. Acho eu.
Desiste tu.
Insisto ponto desisto.
Des-existo tu.
De-existe mim.
Vesgo tu.
Porco eu.

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junho 4, 2008

Pensando bem, era estranho: nas fotos formato três por quatro, noventa vezes em cem, uma pessoa sai de olhos arregalados, traços inchados, um sorriso que não combina. Ao menos, ele sempre saía assim nas fotos e agora, verificando aquelas cédulas de identidade, em cada foto em que encontrava feições tensas, em expressões artificiais, reconhecia a sua mesma falta de liberdade diante do olho de vidro que nos transforma em objeto, sua relação sem distanciamento de si próprio, a neurose, a impaciência que prefigura a morte nas fotos dos vivos.

As freiras não: posavam diante da objetiva como se o rosto não lhes pertencesse, e daquele modo saíam perfeitas. Nem todas, claro (Amerigo agora lia as fotos das freiras como um cartomante: reconhecia as que ainda estava no aperto da ambição terrena, as que eram movidas pela inveja, as paixões não extintas, as que lutavam contra si próprias e sua sorte): era preciso que tivessem ultrapassado como que um limiar, esquecendo-se de si próprias, e então a foto registrava esta imediatez e paz interior e beatitude. É sinal de que uma beatitude existe?, perguntava Amerigo (ele era levado a ligar esses problemasque não lhe eram muito costumeiros – ao budismo, ao Tibet), e, se existe, então devemos persegui-la. Devemos persegui-la em detrimento de outras coisas, de outros valores, para ser como elas, como as freiras?

Ou como os idiotas completos? Também eles, em suas carteiras de identidade ainda cheirando à tinta, mostravam-se felizes e fotogênicos. Para eles também dar uma imagem de si não constituía um problema: significava então que o ponto a que se chega com a vida monacal, através de um caminho trabalhoso, eles o têm como dádiva da natureza?

No entanto, os que ficam no meio do caminho, os deficientes, os retardados, os neuróticos, aqueles para quem a vida é dificuldade e esmorecimento, nas fotos são um desespero: com aqueles pescoços tensos, aqueles sorrisos que parecem de lebres, especialmente as mulheres, quando lhes resta uma mísera esperança de saírem simpáticas. Traziam uma freira numa maca. Era uma jovem. Estranhamente uma bela mulher. Toda vestida como se estivesse morta, o rosto, sua cor, parecia uma composição de quadro de igreja. Amerigo teria gostado de não se sentir atraído a olhá-la. Deixaram-na na cabine em cima da maca, com um banquinho por perto, que ela também fizesse sua cruzinha. Para Amerigo, enquanto ela estava , restava, sobre a mesa, o documento. Olhou a fotografia; levou um susto. Era, com os mesmos traços, o rosto de uma afogada no fundo de um poço, gritando com os olhos, arrastada para baixo na escuridão. Compreendeu que nela tudo era recusa e desvencilhar-se: até jazer imóvel e doente.

O dia de um escrutinador. Italo Calvino.

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en el ultimo trago

junho 3, 2008